As obras recentes de Conceyção Rodrigues são admiravelmente construídos a partir de uma reflexão sobre o corpo como linguagem, nela, a verticalidade dos quadros representa o paralelo entre a pintura, o corpo da artista e o corpo do espectador sempre numa busca simultânea de referências.
Para Deleuze, "a linguagem forma um corpo glorioso" representado pelo dinamismo da vertical, em oposição à passividade da horizontal. No ver da artista, como o gesto é dinâmico, ele pede um espaço vertical.
Talvez mais do que isso, pois após Merlau-Ponty o quadro pode ser visto como um organismo, para ele "este é o enigma: meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. (...) Ele se vê vidente, toca-se tateante, é visível e sensível por si mesmo." (...) "... a pintura jamais celebra outro enigma a não ser o da visibilidade." (O Olho e o Espírito)
O alinhamento vertical e a escala humana dos quadros não buscam o monumental ou o grandioso mas querem criar uma relação "íntima" com o espectador, pela própria posição vertical do espectador que olha o quadro, como sua extensão visual ou procurando envolve-lo na tela.
Nas pinturas de Conceyção o corpo representado é uma armadilha, é o próprio corpo da artista desfigurado, que se esconde através do véu da pintura é o eu dissolvido (Deleuze) que se abre para as diversas interpretações.
Nestes quadros ela reduziu a sua palheta cromática (com relação às obras dos anos 90): o cinza grafite, o preto, o branco, o vermelho e o ocre. O cinza primeiro, fosco ou brilhante, é a veladura que nos incita à descoberta; é o pano, é o véu que temos que "desvelar" para penetrarmos nas entranhas de seu organismo. O desenho estrutura a superfície da tela criando um sistema de cheios e vazios. Esta estrutura é gráfica, é uma escritura sobre a qual é acrescentada a camada pictórica. As pinceladas, em camadas, inscrevem a trajetória do gesto no interior do quadro. As camadas são veladuras, mas também transparências e, nesta simultaneidade do gesto, da matéria pictórica e da escritura ela contrapõe as tensões extremas entre o preto e o branco, o preto e o vermelho ou o vermelho e o branco, amenizados por vezes pelo ocre.
São camadas-veladuras que acentuam a materialidade através da impressão do volume e da profundidade mas deixando ver a transparência, a tela é concebida como a pele que recebe os diversos tratamentos de cor e textura.
As veladuras são metáforas do tecido, do pano, que passou pelo quadro e deixou o seu vestígio enquanto traço, marca, textura lisa ou rugosa que pede o toque, é sensível, é tátil que se contrapõe novamente ao visual do brilhante ou fosco. A última ação é a mais sensível, é o que está à "flor da pele", é a gestualidade do traço, das incisões, dos riscos, detalhes que acentuam a tatilidade da obra.
"O eu que é olhado perde sua identidade sob o olhar" (Deleuze) e o espectador que olha também se põe fora de si e se envolve no quadro num ambiente total, o envolvimento do espectador pela pintura, uma imersão no quadro, e o fundo parece retornar à superfície e retorna como lembrança multiplicado pelo olhar. A linguagem buscada no paralelo do corpo são signos formais do seu próprio mundo interior e o olhar não satisfeito de estar bloqueado pelas massas escuras e espessas dessa bruma procura abaixo dela sinais, índices, não só na metáfora da sua reprodução, mas principalmente na presença física do quadro.
Desvelada a transparência, as reentrâncias e saliências pedem a aproximação do espectador como uma necessidade tátil, não só para observar a riqueza dos detalhes mas principalmente pela vontade de tocar, de penetrar na obra e tornar claro o velado, conhecido o desconhecido, exteriorizando a interioridade.

Fernando A. F. Bini
Professor de Estética e História da Arte. Crítico de arte.
Junho, 2001

Desde algum tempo venho acompanhando o trabalho de Connceyção Rodriguez sem tê-la conhecido pessoalmente. Só recentemente nos encontramos em seu atelier, ocasião em que demonstrou seu desejo de Ter sua próxima exposição por mim apresentada. Aceitei de imediato o encargo, pois o meu diálogo com sua pintura antecedera a qualquer relação com a autora.
A série de pinturas que constitui esta mostra, realizada sobre grandes telas libertas da montagens convencionais, soltas como panos fixados numa parede, denota, logo de início, o desejo de romper com as regras da "burocracia" da produção artística.
Apesar de Ter passado por um aprendizado acadêmico, Connceyção Rodriguez se apresenta ao público, a caminho de sua maturidade artística, mostrando o firme propósito de eliminar qualquer interferência, deliberada ou não, que possa prejudicar a intenção primeira de que sua obra seja um canto a sua liberação como ser constante aprisionado pelas malhas de um mundo de regras.
Portanto, o objeto em sua aparência mais banal está afastado da ótica da pintora. Prefere ir em busca de outras formas de realidade que a própria pintura oferece ao artista. A partir do momento em que deixa de seu uma janela simplória voltada para o mundo exterior, passa a ser um processo de transformação, fruto de uma grande criativa interior que se decodifica a partir de gesto e impulsos aplicados sobre a superfície da tela.
O resultado que é esperado, porém não programado, é fruto da ação de suas mãos e dos instrumentos de pintura que fazem fluir manchas, sinuosidades misteriosas ou planos propositalmente singelos. Elas convivem com superfícies cheias de um grafismo rico de expressão, num diálogo de formas e texturas que, em última análise, revelam a intensidade emocional e a paixão incontida da artista.
Encontro na coleção de obras ora apresentada uma linha reveladora da intenção estabelecida pela artista ao propor o conjunto de pinturas que aí está. Ela pretende manifestar, num grito forte, a negação de uma suposta fragilidade feminina deixar fluir, por vezes, até com alguma violência, toda uma incontrolável necessidade de vencer sua limitações. Mostra com clareza sua potencialidade, sua sensibilidade, seu inconformismo e todos os mistérios de seu interior, no ato infinitamente belo da criação. Esta magia concretiza a afirmação de liberdade existencial, só possível, talvez, neste momento de impenetrável intimidade.

Fernando Velloso
Artista plástico e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte.
Outono, 1996

 

 Criar um espaço cheio de energia, onde a estabilidade das formas está sempre em suspenso, é umas das características das pinturas de Conceyção Rodriguez. À vontade expressiva alia-se o domínio técnico, a fim de gerar uma relação dinâmica entre a força do gesto e as diferenças de densidade das várias camadas pictóricas.
A noção do tempo se dilata na transmutação de luzes e de sombras, cuja aura de mistério, longe de determinar uma presença objetiva, conduz à idéia de um lugar em constante formação. Essa subjetividade da imagem, advinda de um lugar cada vez mais consciente de suas reais qualidades, potencializa o ato de pintar e realiza o desejo de formas até então desconhecidas, que emergem gradativamente, na ânsia de pôr em evidência nossa capacidade persceptiva.
A pintura começa e termina pelo branco e da pureza do suporte até a plenitude da imagem, os fatos se sucedem e se aglutinam, num embate intrigante de castanhos e negros. Convite a um eterno "imaginar", essa porta aberta aos espaços da interioridade é um equilibrar constante entre emoção e razão.

Cristina Mendes
Artista Plástica com pós-graduação
em História da Arte do séc. XX
maio 98

Há o gesto da força transformadora nas telas recentes de Connceyção Rodriguez.
Inquietação e equilíbrio, desejo e realidade, impressão sensorial e concretização da imagem são sinais de dualidade que referenciam sua obra.
Presença destacada nos Salões de Arte, Connceyção Rodriguez estabelece uma dinâmica caligrafia chamada push and pull, para impor com inventividade sua dialética na jovem arte brasileira.
Esta vitalidade latente Kunstwollen designa sua pintura. abstração e emoção constituem o diálogo na incomum paleta desta artista.

Edson Busch Machado
Secretário da Cultura de Joinville
Abril de 1997

Conceyção Rodrigues, Rio de Janeiro,1959

Desenvolve projetos de identidade visual, ilustração, design gráfico, design de embalagens na CR DESIGN desde 87.

  • Formada em Comunicação Visual pela Universidade Federal do Paraná
  • Bacharel em Pintura e Desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná
  • Ministrou oficina de pintura no 13º Festival de Inverno de Antonina da UFPR
  • Ministrou oficina de pintura “Atitudes & Possibilidades” na Estação Arte pela Prefeitura de Ponta Grossa / PR
  • Participou do Curso da Adobe Solutions Network – Eng DTP Multimídia – Curitiba ­– PR
  • Slow Design – Escola Design ao Vivo e IBQP– Curitiba ­– PR.
  • Pós–graduação no Programa de Ecodesign da Escola Design ao Vivo - I B Q P/ PR.

 

Participou de 22 Salões de Arte Contemporânea da Secretaria da Cultura entre eles:

  •  IV Salão Victor Meirelles - SC
  • 49º / 51º / 52º / 58º / 59º Salões Paranaense - MAC - PR
  • XX Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional Contemporâneo - SP
  • 2º Prêmio Günter de Pintura - MAC de São Paulo - SP
  • III Bienal do Recôncavo Baiano - BA
  • Prêmios de  Aquisição Governo do Estado no 1º Salão de Artes de Telêmaco Borba  (SEEC/PR)
  • 22º Salão de Artes Plásticas de Jacarezinho (SEEC/PR)
  • 7º Mostra de Artes Plásticas de Goioerê (SEEC/PR)
  •  IV Salão de Artes Cidade de Itajaí – SC

 

Individuais

  • Museu Metropolitano de Arte de Curitiba –  Fundação Cultural de Curitiba,
  • Projeto Exposições Itinerantes Cosem/SEEC-PR,
  • Museu Alfredo Andersen - Curitiba PR,
  • Casa da Cultura de Itajaí – SC,
  • Fundação Cultural de Criciúma – SC

 

Prêmios

  • 2002     Prêmio Aquisição no 2º Salão de Artes de Santo Antônio da Platina - Secretaria de Estado e Cultura / PR
  • 2001     Prêmio Aquisição da Secretaria de Estado na 13º Mostra de Artes Plásticas de Goioerê ( SEEC/PR )
  • 1999     Prêmio Aquisição Governo do Estado no 1º Salão de Artes Telêmaco Borba ( SEEC/PR )
  • 1996     Prêmio Aquisição no 22º Salão de Artes Plásticas de Jacarezinho ( SEEC/PR )
  • 1995     Prêmio Aquisição da Secretaria de Estado na 7º Mostra de Artes Plásticas de Goioerê ( SEEC/PR )
  • 1995      Prêmio “Cidade de Itajaí”no IV Salão de Artes Cidade de Itajaí - SC
  • 1991     Prêmio Aquisição pelo conjunto de Obras no 1º Salão do Mar ( SEEC/PR )