Conceyção Rodrigues

Poética de trabalho

Formas deliberadas, jogos de colocações dentro dos espaços criados, imaginados e sentidos, com base nestes princípios, estabeleci um diálogo com a pintura. A busca de um tempo que se estruturou tendo no gesto e na sua materialidade como forças principais.

          Em conteúdos abstratos, a concretização de imagens se estabelecem através de impulsos gráficos como um processo de transformação, onde o ritmo e as cores criam-se mutuamente.

          Na exposição individual na Sala Miguel Bakun em 1996 desenvolvi vários trabalhos que utilizavam as técnicas de óleo, acrílica e pigmentos em telas desprendidas do suporte. A gestualidade se impunha com uma vasta gama de cores, tratando cada obra de forma única. As superfícies são repletas de grafismos e gerando fortes contrastes.

             Numa fase seguinte em 1998, apresentei uma individual no Museu Alfredo Andersen, onde a pintura ganhava novos resultados; como a presença de elementos de transparências e veladuras. Nesta fase a profundidade e a justaposições de imagens convidavam o observador a um percurso de olhar tenso e íntimo. Como comenta o texto de apresentação do professora e artista plástica Cristina Mendes:…”A noção do tempo se dilata na transmutação de luzes e de sombras, cuja aura de mistério, longe de determinar uma presença objetiva, conduz à idéia de um lugar em constante formação”.

            Continuando a pesquisa dentro dos processos de pintura, realizei uma exposição individual no Museu Metropolitano em 2001, titulada “Reentrâncias”. Nesta mostra pude desenvolver novos conteúdos. As obras demonstradas tratavam questões ligadas as imagens que remetiam as formas corporais e orgânicas.

            A pintura passa a ser explorada de outra maneira, onde camadas são inseridas como também retiradas. As cores ganham novos significados, elas são reduzidas da paleta e prevalecem cores extremamente fortes, como os vermelhos em especial. Há uma clara intenção de associar elementos de aspectos orgânicos, utilizando estruturas que tencionam formas verticais e dimensões próximas ao do meu próprio corpo.

            Na apresentação feita pelo Professor e Crítico de Arte Fernando Bini: …”As veladuras são  metáforas do tecido, do pano, que passou pelo quadro e deixou o seu vestígio enquanto traço, marca, textura lisa ou rugosa que pede o toque, é sensível, é tátil que se contrapõe novamente ao visual do brilhante ou fosco. A última ação é a mais sensível, é o que está à “flor da pele”, é a gestualidade do traço, das incisões, dos riscos, detalhes que acentuam a tatilidade da obra.”…

            A partir desde momento começa minha pesquisa em torno de telas transparentes, possibilitando assim a descoberta da luz no próprio suporte. As imagens passam a ser trabalhadas em camadas de várias telas em sobreposições. Utilizando estes novos suportes adquiri uma tridimensionalidade física e pictórica. Na Instalação “Aquém e Além” exposta no MuMA na Exposição “Mais de 3”, em 2004 exemplifica este processo de trabalho.

Atualmente seguindo neste desenvolvimento de trabalho, os desenhos em papel e outros suportes estão sendo produzidos.

            Dentro destes novos conceitos, busco que a pintura possa ser inserida e recolocada em questões não tanto pesquisada, com o intuito de conseguir assim: resultados atuais e reflexivos.